O que “gentrificar” quer dizer








Em geral, há consenso sobre a natureza mutável da língua. Pode haver, também, um certo grau de acordo quanto a língua tender a variar em função de condições econômicas ou culturais dos falantes. Menos se comenta sobre ser a língua também objeto de política. E quando comentamos, quase sempre o será para discutir os processos pelos quais foram normalizadas e, de certo modo impostas, as modernas línguas européias, tais como as falamos e escrevemos hoje em dia, durante a construção, nos séculos XVIII e XIX, dos Estados nacionais francês, alemão, italiano, espanhol etc.
Diante da colcha de retalhos lingüística que caracterizava a Europa medieval e, até hoje, ainda sobrevive em muitas das suas grandes regiões, os Estados em formação, sendo o caso francês talvez tomado como paradigma, adotaram políticas públicas explícitas para levar toda uma vasta população a abandonar seus antigos dialetos ou línguas, substituindo-os por aquela que fosse definida como oficial e, sobretudo, nacional. Na França, a variação falada na Île-de-France; na Itália, o dialeto da Toscana; na Espanha, a língua de Castela. Os instrumentos dessa política foram, entre outros, a obrigação de uso da língua oficial em qualquer documento público; o seu ensino compulsório e exclusivo na escola fundamental; seu uso também obrigatório no serviço militar. Evidentemente que, se o processo, ao cabo de algumas décadas, confirmou-se razoavelmente exitoso nesses países, foi porque, sobretudo, havia no conjunto da população o desejo e o movimento de vir a ser parte de um Estado nacional.
Mas essencialmente era um projeto comandado pelo Estado, era constitutivo de políticas públicas, cabendo ao Estado, por seus mecanismos adequados (de preferência, mas nem sempre, democráticos e republicanos) tomar as decisões normativas (dentre elas, as muitas reformas ortográficas feitas ao longo dessas décadas) e fazer com que o conjunto dos cidadãos conhecessem e adotassem aquela que fosse considerada a língua nacional padrão, na sua fonética, na sua morfologia, na sua sintaxe. Na França, existe mesmo um Ministério da Cultura e da Francofonia, expressão clara da importância dada à política de língua, sendo a Academia de Letras uma das mais poderosas instituições dessa política. E, em nenhum país, talvez porque seus cidadãos são assim educados, os usuários da língua propõem-se conscientemente a ofender a norma padrão. Muito menos os seus meios de comunicação!
No Brasil, não é de hoje que os média (como se diz e se escreve em todos os países de língua neolatina, inclusive os hispano-americanos, menos no Brasil), arvoraram-se em normalizadores da língua, explorando o vazio aí deixado pelo Estado e pela sonolenta Academia Brasileira de Letras. Os casos são muitos, até mesmo a esta altura corriqueiros, mas nem sempre podemos captar o instante exato em que isto é decidido e posto em prática. Os casos tornam-se assim tão naturais quanto o morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Por isto, a edição de O Globo de domingo, 27 de outubro, tornou-se exemplar para o estudo desse processo.
Nas suas páginas 18 a 24, o jornal faz uma interessante reportagem sobre o movimento derevitalização de alguns bairros da cidade do Rio de Janeiro, conseqüência do bom momento econômico vivido pela cidade por conta do petróleo, da Copa do Mundo, das Olimpíadas. Não se trata, porém, de um movimento exclusivamente carioca. A reportagem mostra que outras cidades do mundo passam por mudanças similares. Na verdade, este é um processo mais geral de adequação de algumas cidades, em diferentes continentes, às condições do capitalismo contemporâneo sustentado pelo frenesi inebriante do mais despudorado consumo conspícuo. O Rio de Janeiro está sabendo aproveitar o momento. Bairros antigos e degradados, habitados por famílias de baixa renda, são renovados através da remoção forçada ou consentida dessas famílias, da derrubada de seus velhos imóveis e construção de novos prédios, centros de compra, instalações de lazer que atraem para ali morar, trabalhar ou simplesmente se divertir, uma nova população de classe média endinheirada, consumista, hedonista.
Lendo a própria reportagem, aprendemos que uma socióloga britânica de nome Ruth Glass, nos anos 1960, estudando fenômeno similar na Inglaterra, cunhou uma expressão para significar o processo: “gentryfication”. A palavra vem de “gentry” que, diz o dicionário, significa “pequena fidalguia”, “nobreza menor”. A tradução literal da palavra é “enobrecimento”. O termo se refere ao processo pelo qual a classe média sofisticada, essa “nobreza menor”, invade um bairro antes ocupado por classe média baixa e outros trabalhadores, dele os expulsando. Por isso, talvez, também se pode ler, na mesma reportagem, comentário de um urbanista inglês, simpático ao processo mas não à palavra: “Gentrificação é uma palavra muito pesada, que vem com uma negatividade muito grande associada a ela. Tenho uma visão diferente” (e prossegue, dando a sua visão “positiva”).
“Gentrificação”? Parece que ele disse “enobrecimento”. Sim, no caso, é uma palavra pesada… Por isto, não será adotada no Brasil. Além de usar esta estranha e inexistente expressão ao longo de toda a reportagem, sequer traduzindo as palavras do estrangeiro entrevistado, seus quatro autores (Fabio Vasconcellos, Flávio Tabak, Natanael Damasceno e Paulo Thiago de Mello), se arvoram no direito de nos ajudar a entendê-la em uma nota de “Glossário”, como sendo um novo vocábulo introduzido em nosso vernáculo. Lemos: “Gentrificação: é um conceito usado para se referir ao processo de renovação de população, em que a chegada crescente de novos residentes de renda superior acaba por transformar o perfil sociocultural da área em questão. Os novos moradores introduzem costumes e práticas de consumo distintos dos tradicionais, estimulando o surgimento de negócios e elevando o custo de vida, especialmente no que se refere aos gastos com moradia, o que pressiona a saída de antigos residentes da área”. Eis os nossos novos Aurélio ou Houaiss!…
A operação morfológica aí efetuada não resulta de desconhecimento, e não é nada ingênua. Se a expressão “enobrecimento” ou sua similar “aburguesamento” começam a se disseminar, todo o conteúdo de classe envolvido nesse processo fica absolutamente claro – como aliás, parece, era o objetivo de quem introduziu o neologismo na língua inglesa. Se a expressão “gentrificação” torna-se usual e costumeira, quem irá reconhecer-lhe o seu real significado? Como entender aliás a crítica daquele entrevistado à palavra, sem traduzi-la corretamente? “Gentrificação” vira sinônimo de “embelezamento”, “limpeza”, “gente bonita”, “gente empreendedora”, vira modismo ao qual todos vamos querer aderir, mesmo que nem todos possam aderir. Logo será uma expressão corrente em nossos cursos de arquitetura (“Planejamento de Gentrificação”, disciplina de 6º período), nos discursos políticos (“prometo gentrificar a cidade inteira!”), nas conversas familiares (“gentrifiquei meu apê”).
É assim que o português falado no Brasil está se transformando num patuá desregrado e feio. Palavras como “site”, “online”, “download” não foram introduzidas na nossa língua por acaso – e, dentre os falantes neolatinos, elas somente são usadas no Brasil. Já sequer se busca aportuguesar a fonética, como se fez em “futebol”, “abajur”, “bonde”, tantas outras palavras. Derroga-se assim impunemente a regra, por exemplo, segundo a qual, à letra /i/ corresponde o fonema vogal, como em [dizer], não lhe cabendo atribuir também o ditongo [ai], atributo próprio à regra fonética da língua inglesa (daí [sait]).  Daqui a pouco, nossas crianças em fase de alfabetização aprenderão que /i/ tanto pode soar como ou [ai]. Coitadas!…
Tais barbarismos ingressam em nossa língua por via dessa mesma prática mediática que não mais busca traduzir ou adaptar expressões estrangeiras perfeitamente traduzíveis porque se empenha em fabricar uma novilíngua cujos significados não mais possam ser encontrados na etimologia – e seus conflitos históricos – desta nossa língua mesma.  Assim como neste caso da “gentrificação”, captado em seu momento exato de fecundação artificial, será também possível localizar o momento exato de adoção de tantos outros termos que hoje barbarizam o nosso idioma. No Brasil, não mais o Estado mas os média se autoproclamaram normalizadores fonéticos e morfológicos da língua. Não deixa de ser uma política de língua. Que melhor prospera ante a omissão e leniência do Estado.
Omissão e leniência também de todos nós da esquerda. Resistir e rejeitar tais imposições mediáticas seria um campo de guerra justa. Basta mirar em nossos países vizinhos para aprender a falar “sítio”, “em linha”, “carregar”, “média”…  E basta querer deixar claro os processos sociais em que vivemos para adotarmos “enobrecer”, no lugar dessa asneira provincianamente pernóstica expressa na palavra “gentrificar”.
Marcos Dantas  é Professor da Escola de Comunicação da UFRJ, vice-presidente da União Latina de Economia Política da Comunicação ¿ Capítulo Brasil (ULEPICC-Br).

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