Black Bloc desconfia de ‘armação’ em notícia sobre dinamite





Integrantes do grupo Black Bloc do Rio de Janeiro, presentes nas últimas manifestações de rua, no Centro da cidade, desconfiam que seja “uma armação” a notícia publicada em uma revista semanal de ultradireira, das Organizações Globo. Um de seus colunistas informa sobre a localização de 119 bananas de dinamite e cordões detonantes por policiais militares paulistas, na última quarta-feira, e a ligação dos artefatos a um grupo do movimento, que agiria no interior de São Paulo.
Relatório da PM atribui a posse dos artefatos a uma quadrilha de assaltantes de caixas eletrônicos, mas a nota publicada aponta um rumo diverso à investigação policial. Identificado na nota do jornalista Felipe Patury como “líder e porta-voz” do movimento anarquista Ação Direta, que integraria o Black Bloc, o jornalista Leonardo Morelli assume que a dinamite teria sido produzida para explodir durante um protesto marcado, possivelmente, para o próximo dia 5, em Brasília.
As bananas de dinamite, segundo a PM, serviria para explodir caixas eletrônicos nos bancos
As bananas de dinamite, segundo a PM, serviria para explodir caixas eletrônicos nos bancos
“O movimento anarquista Ação Direta diz que são dele as 119 bananas de dinamite apreendidas pela polícia paulista em Guarulhos, na quarta-feira passada (23). O jornalista Leonardo Morelli, que se apresenta como líder e porta-voz do grupo, afirma que elas foram fabricadas artesanalmente. A Ação Direta promete um “dia de fúria” em novembro”, diz a nota na revista Época.
Morelli não respondeu às tentativas do Correio do Brasil para que confirmasse, ou não, os fatos atribuídos a ele na nota do jornalista de Época. Na página que mantém em uma rede social, no entanto, o militante publicou, no último sábado, um texto no qual informa sobre o risco de morrer ou ser preso.
Leia, a seguir, o texto de Morelli:
Ódio mais visceral que nunca “ó nóis aí tra vez”
“Estive um pouco foram de circulação, mas ainda não morri, embora isso não demore a acontecer.
“Primeiro eram as horas, fizeram-se dias, alongaram-se por semanas e – mais uma vez – um mx de saúde abalada, ameaça de repressão e risco de prisão depois de uma ação nossa contra o Governo Alckmin em apoio às populações vítimas de áreas contaminadas, no dia 06 de outubro (PREMIO CONTAMINA SP) em que ficamos NA MÃO e sem contar com um mínimo decente de companheiros e companheiras.
“Embora tivessem confirmado presença parece que gostam mais do cyber ativismo desa porra de facebook, querreiros só na internet. Cheguei até pensar que o melhor seria ter morrido mesmo ou que a alternativa seria o exilio voluntário, mas não, dizem que ERVA DANINHA é ruim de morrer, mas até quando.
A foto ilustra o comentário de Morelli, na mensagem deixada em sua página do Facebook
A foto ilustra o comentário de Morelli, na mensagem deixada em sua página do Facebook
“Vi mais de 300 mil pessoas se solidarizando contra a violência contra cachorros, causa que apoio, mas não entendo porque esse mesmo numero de pessoas nada faz em favor de mais de 5 milhões de pobres e miseráveis que vivem em áreas contaminadas por indústrias, governantes corruptos e filhos da p(…) de toda ordem desse sistema macabro. Pra quem mora em São Paulo, bem mais perto que São Roque, em Carapicuíba mesmo.
“Pra quem mora em Curitiba, no bairro da Caximba ou na cidade vizinha de Fazenda Rio Grande, pra quem mora em BH tem contaminação em Ipatinga, Juiz de Fora, em resumo, em mais de 20 mil localidades. Mas vamos lá, a luta continua.
“Agora estou me envolvenfo numa OCUPAÇÂO numa área rural e apoio a outra ação direta forte. REMEMBER 5th NOVENMER – OPERAÇÃO V DE VINGANÇA – 5 DE NOVEMBRO – BRASILIA -DF, sob a batuta da MIDIA ANARQUISTA, aguardem”.
Criminalização
A ação atribuída a Morelli, no entanto, não é vista com simpatia por integrantes dos Black Bloc no Estado vizinho do Rio de Janeiro. A produção de bananas de dinamite, para um dos líderes cariocas do movimento, que falou ao Correio do Brasil em caráter sigiloso, “é uma atividade que destoa do confronto direto às forças de repressão do sistema”. Ainda segundo o militante, no Rio, “as atividades deste grupo, no interior de São Paulo, não representam a ação de combate aos alvos capitalistas (que os Black Bloc vêm realizando em todo o país)”.
Para uma militante petista histórica, que não apoia a radicalização do movimento a ponto de se produzir explosivos de alto poder destrutivo, no entanto, “ações assim apenas têm produzido um efeito negativo nos valores mais caros à esquerda brasileira”. O enfrentamento entre os black blocs e a militância dos partidos tem levado à criminalização de setores mais radicais no arco revolucionário.
“Estão fazendo mesmo uma campanha de pega pra capar. É incrível. Não aprovo o que esses meninos estão fazendo, estão meio perdidos sim, mas o meu problema sempre foi com essa demonização que o ‘nosso’ pessoal começou a fazer. Não há um dia que passe sem que eles ataquem violentamente os black bloc, e sequer precisam de notícia alguma – é campanha de linchadores mesmo. Uma fúria que eu nunca vi. Tem muita gente comentando que a PM devia prender, atirar e arrebentar com eles…. É a barbárie sem tirar nem por. Depois que Lula e Dilma deram o sinal então… Aí é que viraram bestas, sem entender que o discurso da Dilma só pode ser esse, infelizmente…. É uma loucura geral”, resume.
Violência do Estado
Em um artigo publicado nesta terça-feira, o jornalista Paulo Nogueira, editor do Diário do Centro do Mundo, a partir de Londres, recorda que a origem da violência não está na ação do Black Bloc, mas na miséria e na segregação em que vive parte considerável dos brasileiros. Entre eles o jovem paulistano, morto noite passada por “um disparo acidental” de um policial militar, segundo relatório oficial. “Como tantos brasileiros vítimas da violência do Estado, Douglas Rodrigues morreu, aos 17 anos, sem saber por quê. Mas teve algum tempo para tentar saber”, afirma.
“Segundo sua mãe, perguntou ao PM que o matou por que atirou nele naquele domingo na sofrida, esquecida, pobre Vila Medeiros, na Zona Norte de São Paulo. Amarildo teve tempo de fazer a mesma pergunta, no Rio de Janeiro? Me ocorre essa pergunta tola neste momento”, reflete Nogueira.
“E depois os ‘vândalos’, ‘baderneiros’, ‘arruaceiros’, ‘bandidos’ entraram em cena para protestar contra a morte de Douglas. Imagino que gostassem que os manifestantes evitassem pisar na grama”.
Leia, a seguir, os trechos finais do artigo:
Este é o Brasil de 2013.
A culpa dos protestos é dos “vândalos”, e não daquilo que encheu de indignação e raiva os “baderneiros” pela violência, pela injustiça, pela crueldade – não esporádica, não eventual, mas contínua.
Algum tempo atrás, em Londres, tumultos tomaram a cidade depois que um jovem negro levou um tiro fatal de um policial branco num carro em circunstâncias mal explicadas.
A polícia agiu para coibir os tumultos, mas o foco dos debates foi: como aquela morte pôde ter ocorrido? A mídia destacou o fato de que a desigualdade social em Londres avançava para níveis vitorianos, e isso significa sempre a possibilidade de convulsões sociais.
E entendamos: em Londres, casos como o de Douglas são raros. Estão distantes do cotidiano de uma cidade em que a polícia sorri para você.
A mídia brasileira contribui para que não se discutam os protestos em profundidade ao criminalizá-los.
Alguma coisa pode estar mudando?
Leio, animado, que um comentarista da Globonews decidiu abandonar a emissora pelo teor da cobertura dos protestos. Eles são criminalizados, em vez de ser estudados e entendidos, alegou o comentarista. Seu nome é Francisco Carlos Teixeira, e ele é professor da UFRJ. “O jornalismo se esqueceu de narrar a violência cotidiana dentro de trens, ônibus, repartições públicas, hospitais e escolas contra a população trabalhadora do país”, disse Teixeira para explicar sua decisão.
A própria esquerda, ou parte dela, contribui para a criminalização das manifestações. Por trás delas, segundo essa esquerda, estão “vândalos” – a palavra é a mesma da direita – interessados em desestabilizar o governo de Dilma.
E assim a discussão escorrega dos Douglas, dos Amarildos, de tantos outros brasileiros assassinados sem saber por que por um Estado violento – e vai dar na sabotagem de grupos, especialmente os abominados black blocs, ao PT.
Daqui de meu canto, emito um lamento impotente. Gostaria que passados dez anos de governo popular em que os avanços sociais são expressivos, garotos como Douglas Rodrigues estivessem mais protegidos.
E também os Amarildos. E também os índios. E também os desvalidos cujas casas foram arrancadas deles nas obras da Copa do Mundo.
E tanta gente.
Na charge de Latuff, Dilma protege o comandante da PM paulista
Na charge de Latuff, Dilma protege o comandante da PM paulista
No mais, no terreno das palavras, faço meu um anseio expresso pelo cartunista Carlos Latuff pouco tempo atrás.
Que Dilma, em sua conta conta no twitter ou onde seja, expresse sua solidariedade firme e indignada à família de Douglas, assim como fez no caso do coronel da PM que levou uma surra.
Foi uma surra lastimável, é certo, mas o coronel está vivo, vivíssimo, pronto para retomar suas atividades – ao contrário do garoto da periferia que perguntou por que levou um tiro.

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